Caminha em direção à cozinha e abre a dispensa. Olha o recipiente de formicida; mas não é formiga para morrer com formicida. E se não é formiga tampouco se sente uma pessoa humana, embora ainda reste um pouco de dignidade humana para morrer como formiga ou inseto.
Não tomará comprimidos. Ingerir comprimidos será um ato por demais inócuo e sem vida. Apanha a faca de corte mais afiado. Cortaria a jugular. Uma forma humana de ser e morrer: o sangue jorrando e extirpando todo o sofrimento que invade sua alma.
Entretanto, não se sente com coragem para realizar um ato tão violento; sempre fora contra todas as formas de violência e não será na hora da morte que assumirá tal posicionamento. Não consegue articularas idéias com precisão. Tudo está nebuloso em sua vida.
Sente-se desfalecida; na verdade já está morta. Existencialmente morta há várias semanas. Agora também morrerá fisicamente. Sente que sua alma não apresenta sinais vitais. Vegeta. E essa é a melhor definição para expressar seu amargor. Dorme e anda. Veste e fala. Come e pensa. Mas não é uma que existe com sentimentos, emoções e sinais verdadeiramente vitais. Simplesmente vegeta. E sem qualquer indício decididamente humano. Pensa na ironia daquela casa luxuosa que tem assistido a todo o seu amargor. É invejada pela riqueza material e beleza física que possui. E se é invejada também inveja aqueles que têm vida e cor na existência.
Dirige-se à garagem e olha o carro passando a mão pelo capô do motor. Acaricia a máquina, talvez o último elo com o mundo e avida. Não havia apanhado a chave e volta para dentro procurá-la. Depois de apanhá-la volta à garagem. Hesita. Talvez essa não fosse a melhor maneira de morrer. Abre a porta. Senta-se no banco e coloca a chave no contato. Não liga o motor. Havia se esquecido dos documentos. Volta para apanhá-los, talvez precisasse deles. Liga o carro, pisa forte no acelerador e logo começa a funcionar. Puxa o afogador para aquecer o motor. E também para abafar sua turbulência interior.
Pensativa não consegue discernir o que estava fazendo. Manobra o carro e sai. Deixa o portão aberto. Liga o rádio e ganha a rua buscando a direção ao infinito...
Caminha pelas ruas estreitas do bairro. E pensa que é melhor procurar uma rodovia onde possa acelerar até o limite de velocidade do veículo. E entregar-se de corpo e alma a seu projeto fatal. Dirige lentamente. E despede-se daquelas ruas e avenidas. Tudo lhe é familiar: cara árvore, canto e coisas. Em casa pedaço um pouco de sua vida. As mãos seguram o volante com ardor. Dentro de poucos minutos não mais fará parte desse mundo.Caminha por um bairro pobre da periferia da cidade. E observa o contraste com o bairro elegante onde mora. Em vez de ruas arborizadas com elegantes mansões, casas pobres. E a desmoronar diante da indiferença de todos.
O carro anda e leva consigo o fim de toda poesia daquela angústia existencial. Entra numa grande avenida. E seu pé acelera com um pouco mais de vigor. Olha o velocímetro: a velocidade salta de quarenta para sessenta quilômetros horários. Diminui a velocidade. Correr mais do que isso nessa avenida poderia ser perigoso. O rádio toca uma música suave trazendo recordações amenas. Cantarola a canção. E nesse momento faz um hiato do sofrimento de sua alma. A música termina. Eliane desliga o rádio. Nada poderá desviá-la de seus propósitos.
O carro move-se numa marcha que é a mistura de angústia e desolação do desespero humano. Pára num semáforo e observa o sinal vermelho: aquela luz é o espelho de seu amargor. Pensativa não percebe o semáforo abrir. Ouve buzinas e de forma automática aciona a marcha e faz o veículo andar dirigindo-se à rodovia rumo ao nada. A alta rotação do motor tange seu rancor assim como o aboio tange a boiada. Atinge a estrada e seu pé imprime grande velocidade ao veículo. O velocímetro acusa os primeiros indícios de desespero: 60, 80, 100, 120 km horários. O veículo está no seu limiar físico. É quase impossível controlá-lo diante do vento que o corta de todas as formas.
Continua acelerando: 130, 140, 160, 180. Fecha completamente os vidros deixando para fora toda a vida e esperança que lhe resta. O carro voa na estrada. Eliane dirige sem rumo e direção. Ultrapassa os veículos que surgem à sua frente sem consciência do que está acontecendo. De repente, um grito: "M-Ã-E!!! Mamãe, por que você está correndo tanto?"
Esse ingênuo questionamento desperta Eliane de seu pesadelo. Olha para trás desesperada. E ao mesmo tempo em que tira o pé do acelerador e o leva ao breque, pergunta incrédula: - O que você está fazendo aqui Luciana? Como você entrou no carro? E a menina responde: - Quando você foi buscar a bolsa entre no carro para passear com você... O desespero de Eliane torna-se ainda maior: em seu rumo fatal agora terá uma companhia inesperada. Tenta controlar a velocidade do veículo. O breque não corresponde aos seus anseios. O carro continua seu louco voo. E a cada metro da estrada o desespero torna-se cara vez mais cáustico e angustiante. "Mamãe, não precisa ficar zangada, eu só queria passear." E a via que agoniza nessa fração de segundo gira impiedosamente num leque de dor. E a voz de Eliane torna-se apenas pranto: - Não, meu Deus, não, piedade...
E o carro depara com um caminhão que, ao ultrapassar um ônibus, obstrui seu caminho de dor. Inutilmente tenta controlar o veículo. Não há tempo para mais nada que a razão determine. A colisão é inevitável. O carro choca-se com a traseira do caminhão estraçalhando-se. Ferragem e sangue. Asfalto e desespero. Sirenes e gritos. Agonia e dor. É o fim de uma aventura perigosamente vivida.
Texto retirado do livro "Suicídio - Fragmentos de Psicoterapia Existencial".